“Não existe moto ruim…” por Luciano Serpa

 

Por Luciano Serpa

Test ride Honda CRF 1000L – Africa Twin

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Gente, antes de começar a falar da moto em questão faz-se necessário uma pequena frase de efeito e uma introdução.
“Não existe moto ruim, existe moto inadequada ao uso ou inadequada ao usuário”.
Visto que para a maioria dos motociclistas moto é paixão, ele está em busca de algo que a moto dos seus sonhos proporciona. Pode-se buscar uma aceleração brutal com uma Suzuki hayabusa, uma Honda Gold Wind 1800cc que tem o conforto e potência de um antigo Landau,  ou o estilo das custom; ou ainda, a possibilidade de um off-road com uma Yamaha XT 250 Ténéré. Se você é como eu, precisaria ter uma moto para cada dia da semana, mas se você é como eu, e só tem uma moto, e esta moto tem que reunir as características que mais se adequem ao seu uso e seus desejos, você pode querer adquirir:

– aceleração brutal + estilo custom = Ducati Xdiavel;
– conforto de landau + aceleração brutal = BMW K1600GT;
– conforto de landau + off-road = Yamaha XTZ 1200 Superténéré;
– aceleração brutal + off-road + conforto de landau = KTM 1290cc SuperAdventure S.

Claro que em cada uma dessas combinações você ganha pontos em algumas áreas e perde em outras, até chegar ao equilíbrio que se faz mais adequado a você. Dito isso vamos para a Africa Twin.
As primeiras impressões estáticas sobre a Honda CRF 1000L Africa Twin já foram faladas anteriormente, em seu lançamento (Veja matéria AQUI). Na ocasião, o que mais chamou minha atenção foi o fato dela ser estreita entre as pernas do piloto, dentre outras coisas. Desta vez, fiz uma pequena viagem de 70km (Recife/Gravatá), e pude realmente constatar como é a moto.

Sabe o fato de ser estreita entre as pernas? Pois é, ajuda muito pessoas como eu, menos favorecidas verticalmente, no dia a dia, facilitando colocar os dois pés bem apoiados no chão. Logo de saída, percebe-se o quanto ela parece leve e como é efetivamente ágil. Essa facilidade e leveza faz-se perceber logo nos primeiros metros, o conforto é surpreendente! Não precisaria alterar nada no cockpit para encaixar-me nela. Minha moto é uma Triumph Tiger 800cc, precisei colocar Riser na base do guidão e para ficar perfeito, teria que pôr um defletor ou uma bolha maior. Vejo que a imensa maioria dos donos de Big Trails acerta o cockpit de sua moto. Na Africa Twin não precisaria de nada, estava tudo perfeito, até a bolha, que era a pequena. Estava suficiente para desviar todo o ar por cima do capacete. Achei o conforto das suspensões muito bom, mas para não ficar apenas na minha impressão, levei um equipamento de alta precisão para medir o conforto e a qualidade da suspenção, minha esposa! O “equipamento” (ela) achou a moto das mais confortáveis e espaçosas que ela lembra. Pensei que a moto pudesse estar com uma regulagem muito macia e que, quando chegassem às curvas ou andássemos realmente rápido, transmitiria alguma instabilidade… Mas que nada, chegaram as curvas e forcei de verdade para ver a moto balançar e minha esposa me apertar (e na realidade eu nunca sei quem vem primeiro, se é o balanço ou o aperto). E não aconteceu nada, nenhuma instabilidade e, por consequência, nenhum aperto. Via de regra, quanto mais ágil a moto, mais instável ela será em alta velocidade. Em uma reta bem longa, cheguei a 180 km/h e nenhuma instabilidade sentida. Freios fortes e progressivos, painel bonito e de fácil leitura (apesar do conta-giros digital de barras, prefiro o analógico redondo tradicional), acionamento dos três níveis e on-off do controle de tração de facílimo acionamento (bem diferente da Tiger, que para mudar de um modo para outro, dá uma canseira, mesmo sabendo como se faz), comandos nos manicotos com material de qualidade, muito bonitos e de fácil acionamento, realmente muito bom o trabalho realizado pela Honda.

Bom, até aqui todo mundo já deve estar dizendo: “Eita, Luciano vai trocar de moto”!
A moto é muito boa mesmo, bem projetada, mas falta “aquela” coisa que boa parte dos motociclistas procuram, sensações, desempenho puro… E esse, na Africa Twin, é apenas suficiente, sabe aquela coisa “nada demais” anda bem, mais só isso… Não quero de maneira nenhuma dizer que o desempenho dela é ruim… É apenas abaixo da minha Tiger, que é uma 800XC e posso dizer que uma BMW F800GS a deixaria para traz, e se não deixar, ao menos oferece a sensação de mais desempenho. Não andei com ela na terra, mas pela leveza, posição para pilotar em pé (perfeita), qualidade das suspensões e agilidade que ela demonstrou, deve ser um espetáculo no fora-de-estrada, certamente melhor entre as big-trails, já que a Yamaha tirou de linha as XT e XTZ 660 Ténéré, bem mais fácil no off-road que minha Tiger. Então como a Africa Twin se posiciona no mercado? A Africa Twin seria para aquele motociclista que quer uma moto para tudo (como qualquer comprador de big trail), gosta de viajar e tem nessas viagens, longos trechos de OFF-ROAD, bem assim mesmo em letras maiúsculas e em negrito, porque estradão qualquer, big trail vai com mais dificuldade ou mais facilidade, mas vai. Em relação a desempenho e comportamento, creio que que ela concorre diretamente com a família BMW F800GS e as Triumphs Tiger 800 XC, XCX e XCA, sendo mais próxima das BMWs em comportamento dinâmico. As Tigers são apenas suficientes no fora-de-estrada, mas vamos considerar apenas as versões de topo que são BMW F800GS Adventure e Triumph Tiger 800XCA, ambas custam (na tabela) R$ 50.900,00 e R$ 51.500,00, respectivamente; a Honda CRF 1000L Africa Twin parte de R$ 64.900,00 e agora estão com uma promoção de R$ 59.000,00, vale dizer que tanto a BMW F800GS Adventure e a Triumph Tiger 800 XCA são muito mais equipadas. Só falando da Triumph XCA tem a mais que a Africa Twin, aquecimento dos punhos, aquecimento de banco piloto e garupa, protetor de carter, protetor de motor, faróis auxiliares, suporte para baús laterais, 3 saídas para carregar equipamentos eletrônicos, descanso central etc. Considerando que em todo mundo civilizado elas são vendidas por preços bem próximos, na Espanha, por exemplo, os preços são os seguintes:

Triumph Tiger 800 XCA – € 13.800 (câmbio de 26.06.2017, são R$ 51.529,20)
BMW F 800 GS Adventure – € 12.800 (R$ 47.795,20)
Honda CRF 1000L Africa Twin – € 13.800 (R$ 51.529,20)

Então, estamos falando de uma ótima moto em que a fábrica vai “matá-la” por causa de sua política de preços. Ela tem potencial para ser líder de mercado em função de ser uma Honda, com sua enorme rede de concessionários e com a garantia de três anos (um ano a mais que a concorrência), além de suas inegáveis qualidades. Mas por causa desta política de preços, só vendeu 168 unidades no Brasil até maio, enquanto a F800GS e a Triumph Tiger 800, venderam 570 e 706 unidades, respectivamente, no mesmo período. Pois bem, ela é tão boa que, apesar da falta de equipamentos em relação à concorrência, eu compraria uma, desde que tivesse um preço realista, no valor que estão pedindo, eu iria de Triumph Tiger Explorer 1200 XR, XCX ou BMW R 1200GS, que podem não ser tão fáceis na terra, mas não vão parar em qualquer estrada de terra, e a resposta à mão direita, é um coice. Necessidade, necessidade, não tem! mas pelo mesmo preço, levaria para casa aceleração e retomadas brutais e suspensões eletrônicas e mais equipamentos. Ah, também teria que ter disponível no Brasil outras cores e grafismos, como na Espanha, a vinho e preta e a toda preta, que são elegantíssimas.

Luciano Serpa

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